sexta-feira, 20 de março de 2009

Formação : Os Sete Pecados Capitais : (4) A Gula





Gula é comer além do necessário para se alimentar. Para alguns, o prazer de comer passou a ser um fim em si mesmo, esse é o erro. Se frustram quando a refeição não é "suculenta e variada". Escrevendo aos Filipenses, São Paulo se refere àqueles cujo "deus é o ventre" (Fil. 3, 19); isto é, o alimento. Se a Igreja nos aponta a gula como um vício capital, é porque ela gera outros males : preguiça, comodismo, paixões, doenças, etc. Podemos beber e comer com moderação e gosto, mas não podemos fazer da comida um meio só de prazer; isso desvirtua a alimentação.

Um corpo "pesado" debilita o espírito. Santo Agostinho dizia que temia não a impureza da comida, mas a do apetite. Ele escreveu uma página sábia sobre isto : "Vós me ensinastes a ingerir os alimentos como se tratasse de remédios". Santa Catarina de Sena dizia que o "estômago cheio prejudica a mente". Santo Ambrósio afirmava que : "Aquele que submete o seu próprio corpo e governa sua alma, sem deixar-se submergir pelas paixões é seu próprio senhor : pode ser chamado rei, porque é capaz de reger a sua própria pessoa". Ghandi afirmava que "a verdadeira felicidade é impossível sem verdadeira saúde, e a verdadeira saúde é impossível sem o rigoroso controle da gula. Todos os demais sentidos estarão automaticamente, sujeitos ao controle quando a gula estiver sob controle".


A virtude oposta à gula é a temperança : evitar todos os excessos no comer e no beber. Para destruir as raízes da gula é preciso submeter o corpo à mortificação. E esta haverá de ser sob a ação do Espírito Santo, nosso santificador. São Paulo ensinou aos Gálatas e aos Romanos que somente o Espírito pode destruir em nós as paixões. "Conduzi-vos pelo Espírito Santo e não satisfareis o desejo da carne" (Gál. 5, 16). " Se viverdes segundo a carne, morrereis, mas, se pelo Espírito fizerdes morrer as obras do corpo, vivereis" (Rom. 8, 12). A ação poderosa do Espírito Santo aliada à nossa vontade, vem em auxílio da nossa fraqueza e dá-nos a graça de superar os vícios.


Como remédio contra a gula a Igreja propõe também o jejum; não como um valor em si mesmo, mas como um instrumento para dominar a paixão. Mas Santa Catarina de Sena ensina que "a mortificação deve ser feita de acordo com a necessidade e na exata medida das forças pessoais". Não se pode impor a todos a mesma mortificação como uma norma rígida, já que nem todos são iguais.


Não é possível querer levar uma vida pura sem sacrifício. O corpo foi nos dado para servir e não para gozar; o prazer egoísta passa e deixa gosto de morte; o sacrifício gera a vida. Não foi à toa que Cristo jejuou quarenta dias no deserto da Judéia, antes de enfrentar as ciladas terríveis do Tentador, que o queria afastar do caminho traçado por Deus para Ele seguir, para salvar a humanidade.



Prof. Felipe Aquino
Revista Canção Nova
Edição de Fevereiro de 2009 (pág. 11)


quinta-feira, 19 de março de 2009

José e José


As igrejas abriam cedo naquela cidade, provavelmente para favorecer o pessoal que começava quase de madrugada a faina das longas jornadas.

Ainda cansado da noite mal dormida, o Zé entrou na igreja em que uma imagem do Menino Parecia Sorri-lhe afetuosamente. Tirou o boné, respeitosamente, e sentou-se acanhado bem perto do altar. Talvez de lá Deus o escutasse melhor, aliviasse logo seu peito pesado, enxugasse as lágrimas que estavam escondidas atrás dos olhos turvos. Ficou com vergonha de desfiar o rosário de queixas, afinal a vida era um presente bom; ficou sem jeito de fazer mais pedidos, afinal já deveria ter feito mais de um milhão. Ficou sentado sem nada dizer, afinal estava na casa de seu Pai.

Pensava o Zé na vida, quando um homem se sentou ao seu lado. Pediu licença e deu bom dia, mas o Zé fingiu que não era com ele. Em cidade pequena, todos se conhecem, mas ele não conhecia aquele homem. E ficou meio na defensiva. Só se aprumou quando o homem lhe perguntou se ele também era carpinteiro. Adivinhara pela bolsa que mal escondia o serrote.

Bom, eram colegas. E conversa vai e conversa vem, descobriu o Zé que tinham muitas coisas em comum: eram de cidades pequenas, de famílias boas, mas pobres, trabalhavam muito e ganhavam nem tanto. Eram casados e suas mulheres, coincidentemente, também Marias, eram maravilhosas e muito santas, sempre alegres e trabalhadeiras. E ambos tinham meninos que eram a fonte de toda a felicidade, mas que lhes davam grandes preocupações.

O filho do Zé era deficiente e sempre precisava da ajuda de alguém; o filho do outro sempre queria ajudar alguém, não parava quieto um só minuto.O Zé pensava no futuro do filho e o outro homem não ficava atrás.

O Zé teve de fugir da seca, o outro de um político cruel; o Zé morou debaixo da ponte, o outro também foi sem-teto; o filho do Zé nasceu num armazém abandonado, o do outro, numa estrebaria; o Zé não conseguiu voltar para sua cidade natal durante longos anos, o outro foi obrigado ao exílio.

De colegas viraram amigos e já falavam em confidências. O Zé gostava sim de rezar, o outro não conhecia coisa melhor. O Zé confessou que até já sonhara com Deus, o outro disse que sabia bem como era aquilo. O Zé falou para o outro que pedisse a Deus por ele e sua família, o outro disse que faria e que não deixaria nunca de protegê-los. O Zé se comoveu, o outro não menos.

O Zé foi para o serviço, o outro ficou a serviço. O dia correu com as horas mais leves por causa daquela conversa. E mesmo sem ter perguntado o nome do novo amigo, o Zé tinha quase certeza de que era o mesmo que o seu.


Frei Yves Terral


Neste dia de São José, pedimos sua intercessão para melhor ajudar a tantas famíias que passam por dificuldades!
Mostra-nos São José como ajudá-los!


sexta-feira, 13 de março de 2009

Formação : Os sete pecados capitais : (3) A Luxúria


A gravidade do pecado da impureza, também chamado de luxúria, é que mancha um membro de Cristo. "Ora vós sois o corpo de Cristo e cada um de sua parte, é um dos seus membros." (1 Cor 12, 27)

"Não sabeis que vossos corpos são membros de Cristo?" (1 Cor 6, 15)

"Tomarei, então, os membros de Cristo, e os farei membros de uma prostituta? Ou não sabeis que o que se ajunta a uma prostituta se torna um só corpo com ela? Está escrito: Os dois serão uma só carne (Gen 2, 24)". (1 Cor 6, 16)

Toda vez que eu peco, o meu pecado atinge todo o corpo de Cristo. De forma especial isto ocorre no pecado de impureza; o que levava São Paulo a pedir aos Coríntios, entre os quais havia este problema: "Fugi da fornicação. Qualquer outro pecado que o homem comete é fora do corpo, mas o impuro peca contra o seu próprio corpo". (1 Cor 6, 18)

São Paulo ensina que devemos dar glória a Deus com nosso corpo. "O corpo, porém, não é para impureza, mas para o Senhor e o Senhor para o corpo; Deus que ressuscitou o Senhor, também nos ressucitará a nós pelo seu poder". (1 Cor 6, 13). "Glorificai, pois, a Deus no vosso corpo." (1 Cor 6, 20)

Nosso corpo está destinado a ressuscitar no último dia, glorioso com o corpo de Cristo ressuscitado. "Nós, porém, somos cidadãos dos céus. É de lá que ansiosamente esperamos o Salvador, o Senhor Jesus Cristo, que transformará nosso mísero corpo tornando-o semelhante ao seu corpo glorioso..." (Fil 3, 20)

Isto explica a importância do nosso corpo, que levava Paulo a dizer aos Coríntios: "Se alguém destruir o templo de Deus, Deus o destruirá. Porque o templo de Deus é sagrado - e isto sois vós." (1 Cor 3, 16-17)

Jesus foi intransigente com o pecado da impureza. No Sermão da Montanha, Ele disse: "Todo aquele que lançar um olhar de cobiça para uma mulher, já adulterou com ela em seu coração." (Mt 5, 27-28). Jesus quer assim destruir a impureza na sua raiz; isto é no coração dos nossos pensamentos.

"Porque é do coração que provém os maus pensamentos, os homicídios, os adultérios, as impurezas, os furtos, os falsos testemunhos, as calúnias." (Mt 15,19)

Para viver a pureza há, então, que estarmos em alerta o tempo todo, como recomenda o Senhor: "vigiai e orai para que não entreis em tentação. O espírito está pronto, mas a carne é fraca." (Mt 26, 41)

Todos nós já pudemos comprovar como é fraca a natureza humana, enfraquecida pelo pecado original.

Após o pecado de Adão não nos resta outro remédio: vigiar os nossos sentidos, pensamentos, olhares, gestos, palavras, atitudes, comportamentos, etc., e buscar na oração e nos sacramentos, o remédio e o alimento para vencer a nossa fraqueza.


Prof. Felipe Aquino
Revista Canção Nova
Edição de Janeiro de 2009 (pg 11)